Aperto o ventre contra a vedação precária. No fundo só o mar, as rochas lambuzadas pelo sal, sobras de maré. Ali arranco do peito em ferida as memórias e sou criança. Brinco nas traves do recreio da escola, entre cambalhotas e piruetas, olhando um mundo que desejava ao contrário.
Na vertigem da queda segreda-me o vento em voz de poeta: aqui é onde pertences e a tua alma tropeça, onde " a terra se acaba e o mar começa"!
Não recebeste o último beijo que te mandei, paira por aí, sem destino,carta perdida sem remetente. Por vezes julgo ver-te, num rosto sem nome, num odor de semente e estás perto, muito perto de mim. Cruzas o teu caminho com o meu, na rua, por mero acaso. Só podes ser tu, noutro lugar, num tempo sem passado. Procuro o teu olhar no rosto desconhecido, dou-te os lábios um beijo e foges-me ou nunca foste Tu.
Caiu-me uma estrela no colo.
Estremunhada, perguntou-me o caminho para o céu.
- Não sei, estrela... porque queres voltar ao céu?
Respondeu-me que era de lá que tinha vindo,era para lá que devia voltar.
Contendo as lágrimas contei-lhe o meu segredo:
- Não há voltar, estrela. Mas há caminho, faz-se de sonhos, da vida que desenhas.
Não temas, aqui no meu colo és grande, vais crescer para além de ti mesma
e brilhar... sempre em nós.