quinta-feira, 27 de setembro de 2012

sentidos


...

hoje vesti-me de ti no silêncio de amar

perfumei-me de Outono

pisei folhas secas da cor do teu olhar

soam a beijo e sabem a mel
                               e a sal

...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

esquecimento

...

Com as lágrimas secaram também os lábios, à força de não serem beijados. Baixaram-se as luzes e escondeu-se o Sol, foi assim que se apagaram os olhos. O resto do corpo passou a receber os cuidados de um cacto, enfrentou secas, intempéries e ventos. Resistiu mais do que qualquer flor, desbaratou a cor e deixou-se esquecer.

...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

relógio de bolso

...


Não temo a morte
o que nos leva é o Tempo 
Ofereço
o Tempo 
em sacrifício a cada respiração perdida
em vão
Partilho
o Tempo em cada sorriso
e desperdiço-O 
sempre 
que O prefiro ignorar
Faço o Tempo
parar
sempre 
que abraço 
e incendeio-O 
sempre 
que amo
Amo sem Tempo

...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

alucinante




viagem urgente
dos teus dedos
desbravas
                                corpos
 abres
                                                      caminhos
Enfrentas fúrias
 Dores
                   medos
 semeias                                                             desejos
                                                                                         fantasias 
E não choras na hora da partida
 apenas te deixas
                                                a
                                                       f
                                                               o
                                                                g
                                                                a
                                                                 r
                                               no ar que respiras
Morres
                                                                                     a cada renascer
                                             a cada torpor
 adormecido
 em coma convulsivo

na intoxicação de um orgasmo

 Arrancado
                                                                                     à angústia de Ser

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"é doce..."


...

Foi assim que acordou. Olhou o espelho e viu um trapo. Correu pelas ruas, atravessou o rio, deu por si numa ilha. Alguém lhe dissera que era deserta. Assim era, tão deserta quanto ela mesma. A maré estava vermelha de algas, conchas, pedrinhas, vida e sangue. Cada onda trazia o seu próprio sangue à costa. Levava-o no seu enleio, abandonava-o depois, como lixo, sobre o areal.
De sandálias na mão, pontapeava o seu próprio sangue. Empurrava-o mais para o esquecimento. Quem a visse julgava que se divertia, não sentia o desespero que imprimia em cada gesto, o grito calado.
Amar, sabia que amava. Da mesma forma que sabia que não era amada. De que vale o amor da nossa vida, se a sua vida parte para outro amor? De que vale a consciência de amar, a força de o calar, se o espelho apenas reflecte um trapo?
Nas ondas viu um vulto mais vermelho que o seu sangue, mais intenso, com vida própria.  Movimentava-se, dançando nas águas pouco profundas. Podia ser um peixe. Podia ser uma sereia. O mar rugiu em fúria: - Parte! Vai-te dessa vida! De que te vale uma vida sem amor? Nada! 
Uma onda ergueu-se, cobrindo a Lua Minguante que nascia no horizonte, as gargalhadas do mar cobriram toda a Terra. Quando se foi, levou o sangue que lhe restava. 
...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

caixa negra

agarrei um sonho

guardei-o numa caixa pequena
                                                 forte
 a caixa
                                                             lindo
o sonho

beijei-o na despedida

fechei-o à chave
                                        em lágrimas
o adeus

                  de prata
a chave

rebola e tropeça

cego e trôpego
                                     o sonho
em mim

sempre

Cai nos precipícios
arrasta-se por calçadas
viaja pelos mares
no aconchego da caixa pequena

                                                        forte
a queda

resiste
não quebra
não solta
vive e respira assim
                                                                       em mim

sábado, 25 de agosto de 2012

meio sonho


sonhava sempre inteira

                                  com meias luas
nas noites escuras

estrelas em
                               vertigem
                 
              cadente

no conforto do seu delírio

                                      etílico

feita luz de luar

sonhava sempre inteira
                                    com meias luas

metades inteiras