domingo, 8 de janeiro de 2012

o cisne negro

Fugi, julguei desligar-me do mundo e ter encontrado um lugar seguro, sem memórias. A manhã estava fria, o chá, só de camomila... escolhi aquele lugar, aquela esplanada deserta, por estar em frente ao lago, longe do alcatrão da cidade. Olhando em redor, com precaução, conseguia só ter verde no meu raio de visão... e o cisne branco.
 Asas abertas, era sem dúvida a vedeta do lago. As raras pessoas que passavam, todas aos pares, paravam para o fotografar.
Da beira do lago onde me sentei, aproximou-se um cisne negro. Ninguém reparava no cisne negro. Impaciente, nadava de um lado para o outro, parecia querer galgar o limite do lago a qualquer instante. O cisne branco ergueu-se na sua brancura e correu sobre as águas em direcção ao cisne negro. 
O empregado que só tinha chá de camomila correu, atirando pedras na sua direcção, sem atingi-lo, mostrando-lhe apenas que aquele não era o caminho. Indiferente, o cisne branco, vedeta do lago, continuou, investindo sobre o cisne negro. Só uma pedra atirada mais perto o demoveu. 
Afinal, havia outro cisne negro, com quem o cisne branco continuou o passeio no lago.
O outro, o meu cisne negro, permanecia no canto do lago, perto de mim. Saiu da água, deixando que o sol iluminasse as gotinhas de água presas ao seu corpo negro. Eram pequenos diamantes. Com dignidade, secou-se ao sol, sacudiu-se e alisou as penas com o bico vermelho sangue. Por fim, ergueu-se com dignidade de primeira bailarina e abriu as asas majestosas. Sem sinal de dor, Negras, enchendo a manhã fria e Só de Lisboa.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

a candeia

...

no caminho para casa
tombou do céu uma candeia

segredou-me: tudo passa

pediu-me que lembre a noite Cheia
em que a minha mãe me ofereceu à Lua

e apagando-me, fez-me sua

...

domingo, 25 de dezembro de 2011

choro

...


era uma vez - tudo se tornou era uma vez
um corpo feito pétalas de luz numa história inacabada


um sorriso fingido abraço que antes de ser se desfez...
era uma vez - uma lágrima de sal nunca chorada




"c'est trop facile de faire semblant"


...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

desinquietude

...
palavras de amor ressoam cuspidas

apagadas

corpos suados gritam na noite fria

rasgados

linhas do rosto por lágrimas esculpidas
  
a bofetadas

sobre o leito jaz o cadáver ainda quente

de uma mulher descrente
e usada

...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SO





Aperto o ventre contra a vedação precária. No fundo só o mar, as rochas lambuzadas pelo sal, sobras de maré. Ali arranco do peito em ferida as memórias e sou criança. Brinco nas traves do recreio da escola, entre cambalhotas e piruetas, olhando um mundo que desejava ao contrário. 
Na vertigem da queda segreda-me o vento em voz de poeta: aqui é onde pertences e a tua alma tropeça, onde " a terra se acaba e o mar começa"!

domingo, 20 de novembro de 2011

sem pé

...

qual o som das lágrimas reprimidas

serão elas ou eu impacientes em direcção ao mar

desenhos de  rios e afluentes nesta viagem em vão

onde não sei se me deixe embarcar ou apenas
AFOGAR

...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

fantasma de mim

Passeiam fantasmas
só se vêm a si mesmos, não sabem da existência... nem de uns como eles, nem de outros diferentes deles.

São só fantasmas
passam indiferentes, fazendo de conta um destino, uma razão para o caminho absurdo

Passeiam fantasmas
tropeçando nos vivos, bebendo as suas aspirações e pensamentos mais reles

Mas são só fantasmas
e resisto ao seu apelo, a tornar-me um deles

Fantasma no meu mundo