sábado, 22 de março de 2014

fuga de mim menor

...
teci um manto de escuridão

na fúria dos nós quebrei os dedos

vi-os em ferida
sem função nas  mãos inúteis
fracos
para um abraço
mortos
para uma carícia

cubro-me com o manto escuro
tecido pelo meu silêncio,

e calo-me
Calo-me sempre!

não vá o meu grito despertar as feras
não vão as feras destruir o meu mundo 

aquele de que me escondo
E depois,

rodeada de destroços,
de silêncio

de que me esconderia eu?

abafo o grito na escuridão do manto
E fujo!

de mim
...

domingo, 16 de março de 2014

monumento ao poeta desconhecido








A melhor coisa que me aconteceu na vida foi ter aprendido a ler e a escrever. Foi a primeira vez em que me senti realmente feliz, capaz de aceder a um mundo que me rodeava mas que eu até aí não decifrava. Comecei a ler tudo, uma viagem de Lisboa ao Alentejo passou a ser empolgante, podia ler todos os cartazes e avisos com que me cruzava durante quilómetros. A maldição começou quando escrevi o primeiro poema… não sei exactamente quando, andava na escola primária. Escrevi sobre a violência que se vivia em Beirute, sobre a guerra…foi o início da maldição. Pouco tempo depois e alguns poemas depois estava a professora a perguntar-me se eu sofria de algum atraso, a minha mãe a evitar que eu mergulhasse tão profundamente nos livros. Já adolescente, lembro-me de ela ter feito desaparecer “O Elogio da Loucura” de Erasmo de Roterdão, assustada com o título.
Contudo, escrevi sempre, rasgando de seguida. Escrevia a amarelo sobre papel branco para que não fosse fácil ler. Periodicamente relia e rasgava tudo. Mantive esse hábito até que descobri os blogs. A medo criei um blog, mantive um perfil discreto e dei-lhe um nome que nem eu sei escrever (só lá consigo entrar pelos favoritos), escrevia com letra muito pequena, e evitava poesia. Foi mais um passo na minha maldição, a pouco e pouco atrevi-me e comecei a publicar poesia.
Por vezes assola-me a vontade de rasgar, neste caso, de o apagar, mas sei que tecnicamente é mais complicado e não substitui aquele som de papel rasgado que tão bem define a ira.
Fui crescendo e ganhei alguma confiança em mim. Consegui manter em arquivo e salvaguardados de mim mesma alguns textos que não publiquei no blog. Pensei divulgar, publicar em livro, concorrer a concursos de literatura e poesia.
O primeiro e único contacto que fiz no sentido de publicar aceitou fazê-lo. O primeiro poema “sob encomenda” foi uma trapalhada, foi quando vi que esse mundo não é para mim.
 As três peças de teatro infantil que escrevi foram representadas pelo grupo de Teatro que me acolhe e não me tem deixado desistir. Acabei de escrever a primeira peça de teatro para “gente crescida”, quase obrigada por eles.
Já raramente escrevo poesia. Não avanço com a publicação dos textos que tenho escondidos, por vergonha, por medo de estar a provar ao mundo que realmente sofro de algum atraso, como previu a minha professora da quarta classe.
Há poucos meses frequentei workshops de escrita, criativa e para palco. Acho que foi mais um tratamento eficaz para estas manias de poesia.
Sinto-me como se desde cedo tivesse aprendido a nadar “à cão” mas a partir do momento em que me obrigaram a nadar com técnica, um braço de cada vez, agora só pernas, agora só braços, tivesse começado a afogar-me. Neste momento não nado “à cão” nem sou o Phelps e Phelps só há um.
Não sabia que tantas pessoas odeiam poesia. Não sabia que ficava tão bem dizê-lo. Não tinha noção da importância de se estar “no meio certo”… mas isso é importante, até mesmo para o blog que está ali mesmo à mão.
Se eu publicar no Facebook que o meu gato espatifou a árvore de Natal e vomitou sobre o Menino Jesus, tenho muito mais reacções do que nos links do blog que partilho.
Dado isto, pondero remover o blog e dedicar-me ao vómito de gato.

domingo, 2 de março de 2014

sem flores

...

a manhã encontrou-me

perdida de mim

longe dos outros

desfeita


não tentem trazer-me de volta

não me procurem nos despojos da noite

não me construam um novo dia

pois se o outro se acabou

sem aplausos


arrancando-me em pedaços 


e nem uma flor foi deixada no meu lugar 

vazio

...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

de tanto ouvir falar de amar

...

amo durante o tempo de um olhar

um minuto uma noite uma vida

mas amo sempre

porque o amor é sempre

é o inicio o meio e o fim

é não possuir nada

não esperar nada

e a brincar celebrar

a vida

a liberdade

nos corpos por semear

...







quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

vazios

...

por vezes perco um sorriso

e eu
sem saber para onde foi, sem saber se o voltarei a encontrar

cada vez mais                      perco sorrisos
cada vez mais                               ficam espaços
                          vazios

desde quando perco o rasto aos sorrisos?
não sei ao certo...

sempre que perco um sorriso
um                        vazio
             fica
um arranhão
                      sangra
como se uma garra tentasse arrancar de mim
          um pedaço de carne


e eu
fugindo de mim
devolvida ao silêncio
amparada nos braços vazios de uma queda eternamente adiada
fico

fico só
fica             o             vazio
um novo sorriso volta


o perdido não volta
nunca mais!

...

domingo, 9 de fevereiro de 2014

cupido em greve

...

não me peçam textos de amor

não me peçam palavras

esgotaram-se

acabaram no fim de mim

nem flores

não me ofereçam flores

passou-se o tempo

esgotou-se o prazo

e o encanto

não me peçam textos de amor

deixem-me



no meu pranto

...

domingo, 5 de janeiro de 2014

o bloqueio

...

As últimas palavras foram cuspidas, sem sentido

Apagaram-se as luzes, conforme o guião.

As palmas ecoaram na sala, os aplausos fizeram-se de pé.

Sem saber qual a deixa final, o poeta ficou sentado, atropelado pelos que saíam.

Fazem-lhe sinal para sair.

- Não ouvi a última deixa...
- Amigo, não interessa. saia da sala
- Só se me disser qual foi a última deixa.
- Não me empate! Olhe que chamo a segurança.

Abandonou a sala, vazio de um final.

De longe gritaram-lhe: - Cuidado, está a resvalar para a poesia!

- Eu?

- Não, a deixa, a última deixa.

...