domingo, 24 de março de 2013

num qualquer pontão


...

cobre-nos a velha manta
espessa
negra e vermelha
a mesma que abafa o universo
em horas de tormenta

esquecemos as cores e o ar que bebemos
queimamos por dentro
para nos apagarmos na onda

incendiamos caminhos
abrindo a pele
somos nós, mar adentro

navegando
na velha manta
a mesma onde guardamos os odores
e os sabores

esquecidos no abrigo

das horas ébrias

de desejo

e de sexo
...

quinta-feira, 21 de março de 2013

a ave

...

lívida, a mulher
não vive
respira
e não ama

foge-lhe o sangue
da ferida aberta

paira, a Ave
sedenta
voa em círculos
alimenta-se de silêncio

rasga o peito
a mulher
oferece-se assim
inteira
na ânsia de acabar
o tormento

sacia-se a Ave
grasnando ao vento:

Foi mais uma que cedeu!

e não morreu

...







sábado, 9 de março de 2013

psyché

...

Naquele dia saiu da cama. Sentou-se em frente ao espelho, muito direita, branca e frágil, como a bailarina de loiça que rodopiava ao abrir a caixa de música. Fingiu lavar o rosto. Espalhou a base.  Às rugas que ladeavam os olhos, juntou mais dois traços, estes pintados por si, a negro. Estes traços sabia-os ela. Entre cada gesto, uma paragem, um olhar no olhar reflectido. Uma interrogação. Como teria chegado ali? Os lábios. Agora contornava os lábios com lápis vermelho. Dessa forma encontrava a linha que deixa de ser rosto e passa a ser lábio, passa a ser boca. O bico do lápis levava a pele. Entreabertos, os lábios, recordavam o tempo dos beijos, da entrega, da dúvida que antecede o toque das bocas. Fechados os olhos, o lápis em suspenso. Uma pequena viagem à memória de ser mulher, à memória de toques de veludo, nos lábios, no rosto, no pescoço. Aqui arrepia-se, arrepia-se o corpo, de prazer, arrepia-se também o caminho para os seios. Ajeita-os no velho soutien branco de bordado inglês. Abre os olhos, vê-se de novo. Observa a maquilhagem. Falta a sombra, diz para si mesma. Em movimentos firmes, espalha o baton sobre os lábios. Ressuscitou assim a boca. Inicia o movimento que a levará a um sorriso. Falta a sombra, é verdade, falta a sombra... Tem o rímel nas mãos. Afaga as pestanas, parecem quase sorrir também. Um último retoque, o pó, que lhe retira qualquer ameaça de brilho que o rosto se lembrasse de inventar. Ainda falta a sombra, sim, falta a sombra. Já está cansada de todo o ritual, cansada da viagem às memórias. Cansada do caminho que tomou para esquecer o caminho que não fez. Perfumou-se e voltou para a cama. Faltava a sombra.

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terça-feira, 5 de março de 2013

deambulando

...

Fiquei com Março colado à pele. 

Foi o degelo que não aconteceu, 
o frio que se incrustou no corpo, quebrando ossos, 
rasgando carne. 

Foi o vazio que veio e ficou, 
mora em mim, no meu silêncio, na ausência do sorriso. 

Na ausência de um som, onde não há som. 

Onde não há eco. 

Arranco os pulmões num grito desumano e... não há nem memória. 

Só 
despindo-me, 
rasgando os trapos em que me fiz, arrancando a máscara... 

Só 

poderei libertar-me deste Inverno?

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

pompa e circunstância

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perdi a conta aos dias que passaram sobre tantos iguais a este
perdi a conta as vezes que se pôs o Sol, depois do primeiro que já não viste

oiço ainda o som seco dos torrões de terra atirados sobre o teu caixão

imagino-o escutado de dentro

e fecho o livro, marcado com uma linha de coser

a mesma linha com que foste alinhavando a vida
construindo finais possíveis inundados de culpa e de lágrimas
como nos romances

perdi a conta aos finais que escreveste... perdi-os de tal forma que nunca saberei
se esse foi o final que escolheste

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

liberdade

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O Tejo vestiu prata, hoje. Cobriu de tule branco o pudor com que assistiu ao beijos que nos arrancámos nas suas margens. Os pilares da ponte suspensos. O Cristo-Rei a pairar, sem chão. Só nós, só os nossos lábios já sabendo a sangue. Afina-se a orquestra, no rio. Saltitam as aves marinhas, em busca de vida. Um barco anuncia-se... ou procura porto? Outro responde... 
Esperamos a entrada do maestro, preparamos as mãos para os aplausos. Aos pés temos as correntes que nos prendem ao cais. Não sabemos a que nos seguram, não sabemos se as queremos. Porém, fomos nós que as inventámos. Para nos sentirmos seguros. Não bastam os beijos, não bastam lábios nem as nossas mãos. Um barco anuncia-se e não obtém resposta. O porto estará livre, ou simplesmente o mundo desertou? A âncora está a postos, só não a queremos usar ainda. Viver à deriva... sem amarras.

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

silêncios

...

pedes-me palavras de amor

nenhuma me pertence

calo-me, muda, sem palavras

e dou-me
no silêncio que se faz no roçar dos corpos

e dás-te
no sémen que se derrama sem saber

pedes-me então mais silêncios,
mais pele na pele,
mais fundo

não sei se dou, não sei se dás
tudo é receber
tudo é dar e sentir

perdemo-nos no balanço
no deve e no haver
nos sentidos sem sentido

e vamos
no nosso  grito

a dois

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