...
A campainha toca e eu estou ainda meia despida. Abro e espero. Ninguém. Vou para o banho. Estou apenas meia vestida quando toca de novo a campainha. Abro e espero. Ninguém. Deixo-me cair sobre a cama meia desfeita. Completamente desfeita estou eu. Vivo a vida meia vestida, meia despida. Abro a porta sempre que tocam à campainha. Nunca é ninguém. Neste ponto digo-me: " - Alguém anda a brincar contigo. Para a próxima não abras." Mas pergunto-me... e se de nunca a abrir me esqueço um dia que tive uma porta que podia ser aberta? As paredes acabarão por me deixar meia esmagada, meia despida, a meio caminho de uma janela com vista para o rio...por fim meia morta, porque agora estou meia viva.
...
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
...
Antes sequer de formar uma letra, risco, risco, risco, até se tornar claro o ruído do bico da caneta a raspar o papel. Não me interessa se a tinta é preta, se o papel é azul ou branco. Quero ouvir o raspar do bico da caneta no papel. Rasga-se a folha, não aguentou a força e a raiva contida na escrita que nunca o foi, nem palavra, nem letra, nem rabisco. Atiro a caneta contra a superficie dura da mesa, faz ricochete e cai ruidosamente no chão. Piso-a, esmago-a, não vá ela ganhar vida e escrever o que lhe vai na alma. Amachuco o papel, a folha fica amassada, uma bola que atiro contra o espelho partido. Mais uns estilhaços caem, ainda sobram uns tantos para outras expressões de raiva ou descrença. Fica o silêncio, contado pelo ponteiros do relógio desacertado. Não conto o tempo, não conto o tempo que passou, não conto o tempo que falta para um qualquer número redondo destinado a contar o tempo que te levou... que me levará a ti... que não me responde por que já te não tenho.
...
Antes sequer de formar uma letra, risco, risco, risco, até se tornar claro o ruído do bico da caneta a raspar o papel. Não me interessa se a tinta é preta, se o papel é azul ou branco. Quero ouvir o raspar do bico da caneta no papel. Rasga-se a folha, não aguentou a força e a raiva contida na escrita que nunca o foi, nem palavra, nem letra, nem rabisco. Atiro a caneta contra a superficie dura da mesa, faz ricochete e cai ruidosamente no chão. Piso-a, esmago-a, não vá ela ganhar vida e escrever o que lhe vai na alma. Amachuco o papel, a folha fica amassada, uma bola que atiro contra o espelho partido. Mais uns estilhaços caem, ainda sobram uns tantos para outras expressões de raiva ou descrença. Fica o silêncio, contado pelo ponteiros do relógio desacertado. Não conto o tempo, não conto o tempo que passou, não conto o tempo que falta para um qualquer número redondo destinado a contar o tempo que te levou... que me levará a ti... que não me responde por que já te não tenho.
...
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Solsticio de Inverno ou a Festa dos Loucos ou o Natal
...
A noite mais longa chegou por fim. Fadas e duendes dançaram à luz da lua. Fez-se uma fogueira e aqueceram-se os corpos. Dançou-se sem descanso numa noite sem fim. Foi assim o principio, os loucos tomaram o poder e inventaram um novo inicio: a esperança de uma vida nova. Homens e mulheres trocaram as vestes e os sexos, dançaram com os loucos, beberam com os centauros e os unicórnios. Quando a noite sem fim chegou ao inicio de um novo principio, apagaram a festa, dormiram no chão e acordaram no esquecimento.
...
A noite mais longa chegou por fim. Fadas e duendes dançaram à luz da lua. Fez-se uma fogueira e aqueceram-se os corpos. Dançou-se sem descanso numa noite sem fim. Foi assim o principio, os loucos tomaram o poder e inventaram um novo inicio: a esperança de uma vida nova. Homens e mulheres trocaram as vestes e os sexos, dançaram com os loucos, beberam com os centauros e os unicórnios. Quando a noite sem fim chegou ao inicio de um novo principio, apagaram a festa, dormiram no chão e acordaram no esquecimento.
...
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
...
Comprei-me flores esta manhã, cheiro de ti
sonhei-te nu esta noite, comigo
sonhei-te nesta cama, ela sabe-te
o sabor dos teus contornos, teu corpo
comprei-me flores esta manhã, cheiro de ti
desejei-te mais de mil vezes, nos meu braços
desejei-te dentro da minha roupa, quente
o cheiro de ti abrindo caminho na carne
comprei-me flores esta manhã, nascidas de nós
...
Comprei-me flores esta manhã, cheiro de ti
sonhei-te nu esta noite, comigo
sonhei-te nesta cama, ela sabe-te
o sabor dos teus contornos, teu corpo
comprei-me flores esta manhã, cheiro de ti
desejei-te mais de mil vezes, nos meu braços
desejei-te dentro da minha roupa, quente
o cheiro de ti abrindo caminho na carne
comprei-me flores esta manhã, nascidas de nós
...
sábado, 18 de dezembro de 2010
... ...
Pois que se faça o Sol e o Vento
e que se varra o lixo das ruas
Pois que se ofereçam laços e papéis
e se embrulhem as crianças nuas
Pois que se esvaziem os hospitais e se pinte uma Noite
e se faça uma estrela com pedaços de pincéis
Pois que se aqueça a cama de papelão e Esquecimento
e se sirvam sopas e melodias
Pois que me deixem gritar bem alto o Lamento
e me calem com sonhos e azevias
... ...
sábado, 11 de dezembro de 2010
Paris, je t'aime!
...
Meu amor
Meia mentira, meia verdade
não és meu... amor
és o segredo da liberdade
Meu amor,
Meia mentira, meia verdade
és o amor, o que sabemos de cor
largado no areal pela tempestade
Meu amor
Meia mentira, meia verdade
és amor, migalha levada no vento
vagabundo inventado da minha cidade
...
Meu amor
Meia mentira, meia verdade
não és meu... amor
és o segredo da liberdade
Meu amor,
Meia mentira, meia verdade
és o amor, o que sabemos de cor
largado no areal pela tempestade
Meu amor
Meia mentira, meia verdade
és amor, migalha levada no vento
vagabundo inventado da minha cidade
...
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Espelho meu
...
Hoje o espelho nada reflectiu. Deixou-se ficar ali, a olhar para mim, sem que eu pudesse retribuir o olhar. Vazio, o espelho. Atrevi-me a tocá-lo, as pontas dos dedos. Gelado, o espelho. Ali, derramei as lágrimas contidas numa vida. Salgado, o espelho. Ali, gritei as dores que me corroem a alma. Estilhaçado, o espelho.
...
Hoje o espelho nada reflectiu. Deixou-se ficar ali, a olhar para mim, sem que eu pudesse retribuir o olhar. Vazio, o espelho. Atrevi-me a tocá-lo, as pontas dos dedos. Gelado, o espelho. Ali, derramei as lágrimas contidas numa vida. Salgado, o espelho. Ali, gritei as dores que me corroem a alma. Estilhaçado, o espelho.
...
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
sábado, 4 de dezembro de 2010
a dor de cor
...
... hoje acordei com o grito do silêncio
Era uma voz muda na solidão
uma cama vazia de corpos em turbilhão
Era a ausência, a falta de ar
E o meu corpo quebrado, a gelar
...hoje acordei sabendo a dor de cor
...
... hoje acordei com o grito do silêncio
Era uma voz muda na solidão
uma cama vazia de corpos em turbilhão
Era a ausência, a falta de ar
E o meu corpo quebrado, a gelar
...hoje acordei sabendo a dor de cor
...
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Para comer com pão
...
Era uma vez um moural de gado - e eu ria, aconchegava-me nos lençóis de linho e no cheiro a lavado.
Era um mocinho muito pequenino ainda, mas já era moural de gado. Guardava para mais de cem ovelhas! Numa tarde de sol, depois do almoço, deitou-se debaixo de um chaparro e deixou-se dormir. Aquilo é que era dormir! Já se punha o Sol atrás dos montes, quando acordou assustado, desatou a contar as ovelhas e... e não é que faltava uma! A chorar, voltou para o monte, a guardar as ovelhas. O patrão estava lá e deu pela falta de uma ovelha. Entre lágrimas e soluços contou: Ai... não me diga nada! Apareceu uma zorra, com os olhos a brilhar e os dentes aguçados, lutei contra ela, dei-lhe um tareão, mas mesmo assim... ainda levou uma ovelha - não me lembro do fim, esta devia ser a parte em que o sono me vencia.
Sonhava com montes verdejantes, com ovelhas a pastar e... antes que sonhasse com a zorra, já estava o sol a acordar-me, a frescura da tablete de chocolate colocada na minha almofada durante a noite... uma "comacompão", dizia o meu pai: se é para comer com pão faz bem!
...
sábado, 27 de novembro de 2010
Esquecimento
...
Perdi-me na manhã de nevoeiro. Não andei porque me esqueceu o andar. Nada vi por me terem esquecido as cores. Apenas voei, num voo solitário sobre a cidade. Senti gente e o calor dos lares. Apeteceu-me escrever sobre isso, mas como se me esqueceu o escrever?
...
Perdi-me na manhã de nevoeiro. Não andei porque me esqueceu o andar. Nada vi por me terem esquecido as cores. Apenas voei, num voo solitário sobre a cidade. Senti gente e o calor dos lares. Apeteceu-me escrever sobre isso, mas como se me esqueceu o escrever?
...
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Mar desfeito
... ... ...
Em cada onda que se desfaz, fica vida no areal: pequenas algas, conchas e cavalos marinhos. Estrelas do mar, caranguejos e pulgas do mar. Esperam nova maré que as leve, ou a mão de uma criança que as reinvente numa tarde quente.
Em cada onda que se desfaz ficam as memórias, o sal de todas as lágrimas, o sabor dos amores sonhados. O abraço de um amante desfeito, a busca de novo abrigo cantado em forma de Fado, nova onda que o leve de volta ao leito.
Em cada onda que se desfaz, ficam os medos e os adamastores. Ninfas que inspiram poetas, vivas em odes e sonetos, fazendo sangrar os seus amores. Palavras que esperam nova onda que as leve ao silêncio colorido dos corais.
E voltar nunca mais.
... ...
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Feita Borboleta
Se eu fosse borboleta, na minha curta vida, cruzava oceanos, contornava montanhas,
atravessava selvas e fintava a mais perigosa fera...
Só para, no fim, pousar nas mãos de um poeta...
atravessava selvas e fintava a mais perigosa fera...
Só para, no fim, pousar nas mãos de um poeta...
terça-feira, 9 de novembro de 2010
sonho ruim
-------
esta noite sonhei o fim do mundo
acordei a memória do cheiro de
flores e o som da chuva
com que se lavam as ruas da cidade
deserta de risos
e de festa
lembrada que foi a fúria dos corpos
gritada a dor do sexo roubado
e escondido
esta noite o sangue
foi de lágrimas
e as lágrimas
gritos de dor
Sonhei que me levava o vento
e largava esmagada sobre os rochedos
esta noite lutei com moinhos em fúria
monstros da minha infância
e Medos
levaram - me nas ondas de um sonho
de nunca mais voltar
e morrer
não chegou a brilhar
o Sol desta madrugada
nunca mais se abriram os olhos
por se ter perdido a razão
de o ver
-----
esta noite sonhei o fim do mundo
acordei a memória do cheiro de
flores e o som da chuva
com que se lavam as ruas da cidade
deserta de risos
e de festa
lembrada que foi a fúria dos corpos
gritada a dor do sexo roubado
e escondido
esta noite o sangue
foi de lágrimas
e as lágrimas
gritos de dor
Sonhei que me levava o vento
e largava esmagada sobre os rochedos
esta noite lutei com moinhos em fúria
monstros da minha infância
e Medos
levaram - me nas ondas de um sonho
de nunca mais voltar
e morrer
não chegou a brilhar
o Sol desta madrugada
nunca mais se abriram os olhos
por se ter perdido a razão
de o ver
-----
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Sud Express
... ...
Efémero
este corpo roubado
mensageiro violentado
de dor perpétua
perdido
na morna caricia das tua mãos
no despido prazer
de me sentir tua
na fúria do desejo
no segredo de um gemido
...
será a despedida amarga
de uma vida breve
acabada
neste corpo trucidado
... ...
sábado, 30 de outubro de 2010
A dor chegou e instalou-se. Domina agora tudo o que sinto, não existe mais nada para além desta dor...
Vou e não sei quando volto, mas farei tudo para a destruir, antes que ela me destrua a mim.
Enquanto durmo, sussurem-me ao ouvido as coisas que dão sentido à minha vida: o nome dos meus filhos, o nome das minhas flores preferidas, o nome da cidade que nunca visitei...
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Rouxinol
- Sabes porque é que o rouxinol canta de noite?
- Não! Porquê?
- Os rouxinóis gostam de videiras, sabias?
- Não.
- Uma noite um rouxinol deixou-se dormir num galho de uma videira. Durante a noite a videira cresceu... e enrolou-se na patinha do rouxinol! Aflito, não conseguia soltar-se. Apareceu uma Fada e libertou-o da sua aflição, ensinou-lhe depois uma canção:
" A Fada Madrinha disse disse, enquanto a videira subisse, não dormisse não dormisse!" Disse-lhe que cantasse essa canção toda a noite para não adormecer e não voltar a ficar preso, porque, de noite, a videira está sempre a crescer...
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Mal me quer
... ...
Amanheceu triste o Sol num falso brilhar
mundo de imagens Falsas memórias de um sonho mau
Vazio em escala cinza Lágrima no olhar
afogada em Dor e silêncio
cinema mudo de Herói solitário na tela rasgada
Apague-se o Sol desvaneça-se a Sombra
desta que sou Nada mais que Alma perdida
sem onde Morar
... ...
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
----------------
Perde-se o fio à meada, no meio de tanto ruído. É uma conversa que não é nossa que não se entende mas que não podemos deixar de ouvir. Um aparelho electrico e as suas ventoinhas, um animal que passa a correr, um coração que bate.
Como soa a dor?
Como soa a solidão na cidade?
Soa a tanto tão sem sentido
Soa à cor das lágrimas
Sem cor
De dor
-----------------
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Tic Tac
23h00m Arranco-me às recordações de ti
24h00m Não preciso fechar os olhos para ouvir a tua voz, música dentro de mim
01h00m E se a realidade fosse possível? Se a imaginação é não te ter aqui agora?
02h00m A verdade é que te tenho
03h00m Escrevo a minha história na tua, a sangue do amor derramado
04h00m Atravesso a estrada do medo
05h00m Oiço-te tremer e hesitar, no prazer de dar e tirar
06h00m O Sol tarda em nascer
07h00m Rasgam-se as nuvens, e as cordas da tua guitarra
08h00m A loucura apodera-se de mim, quero-te como nunca
09h00m Sempre
domingo, 3 de outubro de 2010
de ti em modo menor
---
Hoje choves em mim
Rasgas-me o corpo e as roupas deixas-me nua
Só e sem ti
Sabendo-te a lágrimas e a dor crua
Fosse eu nuvem para te levar
A esse céu que te espera só por te amar
---
sábado, 2 de outubro de 2010
Câmara hiperbárica
... ...
Esmaga o meu coração, está nas tuas mãos. Deixa escorrer o sangue pelos teus braços
E aperta, aperta-o sempre mais, até já nada restar, apenas sangue e dor.
Cala o meu grito com os teus lábios e desfaz-me, como se desfazem os laços...
"Tonterias" é o que me fazem as saudades do teu amor
... ...
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A prova
... ...
Acabarei... onde começa o mar.
Vivo como a maré numa força que me leva para longe,
envolta no frio odor que paira no ar.
Chama-me o abismo, as rochas fustigadas pelas ondas
o fascinio da escolha entre ir e ficar.
Serei onda, serei estrela do mar,
Cavalo marinho, coral ou apenas espuma
Ou sal...
Acabarei... onde começa o mar
sem vida ou SÓ... adormecida no areal
... ...
sábado, 25 de setembro de 2010
Além ou os cogumelos mágicos
... ...
Um dia o espelho cansou-se de esperar uma imagem que pudesse reflectir. Ganhou vida, tornou-se maleável, descolou-se da parede e percorreu toda a casa. Absorveu todas as imagens que encontrou, a casa deixou de existir, viu-se no meio da cidade. Numa corrida louca e trôpega de anos de inércia, percorreu a cidade, absorveu todas as pessoas por quem passou, os edifícios, os carros, o asfalto, pontes e barcos. Deu por si sem fôlego, debruçado sobre o mar... estava "onde a terra se acaba e o mar começa", a medo espreitou a linha do horizonte. Bastou para a absorver e quebrar por fim. Em mil pedaços tombou sobre as ondas iradas e fez-se areia levada pelas marés. Ninguém conseguiu explicar como ficou a imagem depois desse dia... sem horizonte.
... ...
terça-feira, 21 de setembro de 2010
"...if I die"
Quanto mais vivo, mais morro... basta de procurar o tal lugar onde o céu não cai.
A angústia luta contra as suas amarras e deixa-as frouxas. Por mais que fuja, só o cenário muda, eu não saio do mesmo lugar, do mesmo momento. Morro devagarinho, em cada lágrima que não consigo soltar.
sábado, 18 de setembro de 2010
Voo para Nunca
... ...
Eu fico. Fico sempre. A minha vida é um cais.
Debruço-me sobre o rio, quase escorrego.
Aceno e não sei se cumprimento, se me despeço.
Todos partem, todos voltam, eu fico.
Um dia hei-de mergulhar. Partir e não voltar.
Serei capaz de me deixar afundar?
Ou subo até ao ponto mais alto daquela ponte.
Não vou, não fico, não parto...
será suficiente para me fazer voar?
... ...
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Paris
... ...
A Paris é uma pequena pantera.
O seu corpo esguio é a noite mais profunda da alma felina. Ainda bébé, brinca, imagina caçadas, esconde-se de um inimigo invisível. Ensaia uma vida de liberdade numa selva que desconhece e descobre por debaixo do armário.
Só os olhos existem no canto escuro onde se aninha, brilham na noite do seu corpo pequenino.
Acariciada ronrona e rebola, enquanto a brincadeira não a desperta do turpor do mimo.
Se tivesse outra vida, queria ser Paris, a pequena pantera...
... ...
domingo, 12 de setembro de 2010
De vermelho, sem censura
... ...
Pintei as unhas de vermelho. Achei que ficava bem assim
a minha mão a passear em ti...
Na doçura de orgasmos incontáveis... sem fim
Pintei os olhos de verde. Para que mergulhasses em mim,
o teu abraço no meu corpo
Na força com que me desejas e desaguas ...por fim
Pintei o meu corpo da cor do teu. Só para nos confundir,
entrelaçados e de prazer baralhados
Na dança de tontos que inventamos... e por fim rir
... ...
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Alentejo: o inicio e o fim (?)
... ...
... ...
A casa onde nasci perturba-me. Foi também a casa onde morreu a minha mãe. As noites nessa casa são mal dormidas, os pesadelos mais reais. No último destes pesadelos... sonhei que estava a dormir (?!). Nas costas, por cima da roupa da cama, senti arranhar, como quem chama, como quem pede para olhar para algo. A primeira reacção foi de sobressalto e logo de descanso - Ah! É a Mia que se aninha! Logo um salto na cama! A Mia não estava ali, tinha ficado em Lisboa! Quis acender a luz, sem saber como respirar, sem saber como me mexer... acordei e senti que a Mia me fazia falta...Foi nessa mesma casa que percebi que um dia podia perdê-la.
sábado, 4 de setembro de 2010
... ...
Faltas-me neste Setembro,
no ar que mal respiro,
no vento arrancando o meu vestido
Faltas-me na água doce que me ampara
A tua pele acalmando a dor da minha quando se rasga.
Faltas-me na cor do meu segredo,
na alegria de um olhar
na amargura de um desencontro
Faltas-me tanto
nesse teu encanto e desejo escondido
de me cantar e fazer sonhar uma volta ao mundo
só para te ouvir... (e)terno vagabundo
... ...
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
J'arrive!
... ...
Esta noite sonhei-te, Paris! ... e voltei a sonhar...um sonho que só posso contar em letras pequeninas...
"Elle respirait, elle oubliait le froid, le poids des êtres, la vie démente ou figée, la longue angoisse de vivre et de mourir. Après tant d'années où, fuyant devant la peur, elle avait couru follement sans but, elle s'arrêtait enfin. En même temps, il lui semblait retrouver ses racines, la sève montait à nouveau dans son corps qui ne tremblait plus. Pressée de tout son ventre contre le parapet, tendue vers le ciel en mouvement, elle attendait seulement que son coeur encore bouleversé s'apaisât à son tour et que le silence se fit en elle. Les dernières étoiles des constellations laissèrent tomber leurs grappes um peu plus bas sur l'horizon du désert, et s'immobilisèrent. Alors, avec une douceur insupportable, l'eau de la nuit commença d'emplir Janine, submergea le froid, monta peu à peu du centre obscur de son être et déborda en flots ininterrompus jusqu'à sa bouche pleine de gémissements. L'instant d'après, le ciel entier s'etendait au-dessus d'elle, renversée sur la terre froide." (A.Camus)
... ...
sábado, 28 de agosto de 2010
Ab sinto absurdo
... ...
Não existo. Decidi que não existo, isso deve bastar para deixar de existir. Deixei de me reconhecer na imagem reflectida no vidro da janela do comboio que me levou para o exilio.
Começo a sentir os efeitos de não existir: pois se não oiço, pois se não sou ouvida. Respiro o silêncio e fere-me o peito como lâminas. Aqui, no exilio, não há mais som nem silêncio, não há. É tudo!
Enrolam-me as ondas negras de morte e levam-me, num comboio fantasma, povoado de fantasmas e... sombras. Na carruagem da frente vai o meu passado. Na carruagem de trás, como mercadoria de segunda, vai o meu futuro. Será deitado fora na próxima paragem.
Eu... simplesmente porque já não existo, vou na carruagem do meio. Bastou-me decidir que não existo: pois se não vejo, pois se não sou vista.
... ...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
... ...
Esta noite ninguém está a salvo.
Revelam-se os solitários, donos desta cidade de cartão.
As ruas cheiram a urina, a vinho e vómito.
Tropeças em lixo remexido e esquecido.
Vem a água que tudo limpa, varre o cheiro,
desfaz as camas nos recantos dos ministérios.
Do cartão com que se faz esta cidade, ficam as gentes
... vestidas de trapos,
...sombras do tempo
Apressa o passo, liberta - te!
Manda-me calar!
Não pares de correr!
Não se sabe a intenção das sombras que te lambem o rosto.
Libertaram-se os teus piores fantasmas, só para te verem
tremer e gemer e correr
como louca pela calçada.
Não olhes para trás, não verás mais que o teu próprio rosto:
assustado.
Isso que te sai pela garganta... é um grito?
... a própria alma?
... um fado?
... uma desgarrada?
É Lisboa, parida numa noite de lua cheia.
... ...
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
... ...
Last night I was dreaming that I was dreaming of you
Esta noite cheira-me a sonho, sabe-me a fruta, travo de canela
como se em Agosto fosse Natal
Não me deixam dormir as vozes e o risos, os talheres a brilhar,
fantasmas que teimam em voltar...
Que parva que sou, se hoje não é Dezembro
e não é lume o que estou a atear...
... ...
sábado, 21 de agosto de 2010
não há cá eco
... ...
Hoje não amanhece nunca mais. Não me larga o amargo da noite... sem lua, sem estrelas.
Todos partiram, para trás fico eu, olhando para nada, vazia até me perder de mim.
Grito até não poder mais, não existe eco nesta cidade, perde-se o grito no vazio.
Não amanso a vontade de gritar: Sempre! Nunca mais!
Fazem ricochete em mim as palavras, já não as suporto mais! Nem ao silêncio...
Alguém que me desenhe um final para este dia, rápido!
... ...
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Cinzas
... _ _ _ ...
... ...
Já não sonho. Sonho que sonho... e não durmo.
Apagaram-se as luzes, só a solidão e eu, no escuro.
Não sei se arranque este punhal que me atravessa o corpo,
se me deixe assim... esperando o derradeiro sopro.
Já não sonho. Sonho que sonho... e não durmo.
Abandonaram-me as forças, o sangue e a vida.
Deixo-me arrastar pelas ondas na força da maré... vazia
Vazia a maré e o corpo levado para o fim do mundo
Já não sonho nem sonho que sonho, apenas durmo.
Passa a vida por mim, cavalos marinhos e algas coloridas
Nem oiço ao longe as vozes na praia, os risos dos vivos .
Apenas eu e o mar, apenas eu e a maré, apenas eu... sem vida...
... ...
... _ _ _ ...
Elogio da Preguiça
... ...
Assisto à minha própria decomposição, passiva, esperando que ninguém note. Já se partiu o espelho que partilhava comigo este triste espectáculo mudo. Não fui eu quem o partiu... apenas se tornou frágil ao ser lançado pelo ar, aterrando no passeio da minha rua. Passaram dias e noites e não saí do meu lugar, sei que o sofá ganhou vida e espera fingindo-se morto por um movimento meu para me abocanhar e depois cuspir as roupas. Tudo acontece à minha volta sem a minha intervenção...o gato adormece em cima da televisão, deixando descair uma pata... depois a outra... para evitar a queda dá um pulo deitando ao chão com enorme estardalhaço dvd's e cd's.
Ainda bem, foi a única forma de me acordar deste sonho estúpido ( e visionário?)...
... ...
domingo, 15 de agosto de 2010
Entre o preto e o branco
Há dias em que se vive a vida em escala cinza.
Repousa - se assim o lado cognitivo do cérebro que distingue, rotula e cataloga a diversidade de cores que nos rodeiam.
Não se perde nada, pelo contrário, pensamos e sentimos a vida com mais intensidade, não nos distraem as cores, não nos enganam.
São esses os dias em que o ar que respiramos nos sabe melhor, a música que ouvimos nos encanta e transporta para outro lado de nós mesmos.
Tudo o que faz parte da nossa vida continua lá, em escala cinza, e aceitamos, naquela paz doce de saber que a cor existe, apenas hoje o Sol não estava para aí virado.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Dança de roda
... ... ...
Inventemos uma história, um conto de fadas, um romance, tanto faz
Que não lhe faltem as princesas, os sapos e as bruxas malvadas
Inventemos palavras para a contar, ouvintes para a escutar
Que não lhe faltem em off os aplausos e as gargalhadas
e música, aquela que só nós sabemos dançar!
... ... ...
sábado, 7 de agosto de 2010
...
Porque se põe tão depressa o Sol?
...leva-me a luz traz-me a tristeza
Lembra a embriaguês o amor feito nestes lençóis
Tormento vazio de nós
Sou quarto minguante numa Lua que me recebe quase Nova
Balanço fragil em que agarro
Breve extinguir-se-á o abrigo
Incendiando as palavras vazias de meu viver
Chama insignificante no mundo
Cessará o fogo que me faz arder
Para sempre...
...
sábado, 31 de julho de 2010
Síndrome do coração partido
Podia deixar-me morrer neste abraço
na frescura de uma noite de Verão,
Soubesse eu que nos esperava mais uma vida
Em tudo igual a esta, os mesmos desejos, os mesmos erros, a mesma dor
Podia deixar-me morrer no teu abraço
embalada no bater do teu coração
atordoada no nosso doce odor
Apenas pelo gosto de te sentir quando a minha alma se for...
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Aprender a noite
Esta noite fez-se duas vezes: uma de Luz, uma de Som
silenciou-nos os sonhos
e os pesadelos
e o Milagre de ver o mar numa velha parede branca
Fez-se de céu e mar lambuzados de Luz
Fez-se de Música e espiritos inquietos
Se não se atrever o Sol, A manhã seremos nós a fazê-la...
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Olá fresquinho!
És tu! Aquele punhado de areia com que eu brincava na praia!
As tardes, passadas a deixar-te escorregar por entre os meus dedos de criança,
pequenos grãos coloridos, num todo claro, um branco indefinido.
O gozo de nunca te agarrar, nunca te prender, ver-te regressar devagarinho ao areal...
Amar-te é assim,
o prazer de te sentir escorregar...
quinta-feira, 22 de julho de 2010
A ceia
Não durmo, dói-me a noite. Saio de casa em direcção a nada. O ar fresco queima-me as entranhas, os raros sons da noite estalam-me no cérebro como achas de fogueira.
Entro num restaurante que nunca tinha visto, algum alivio como entrada: as luzes suaves, os odores a maresia, o som das ondas... Tropeço num menu abandonado: o prato do dia é morte súbita, recomendado pelo chef é a morte lenta acompanhada de paz e tranquilidade.
Posso escolher a morte súbita, sendo prato do dia, está pronta a sair e não terei tempo de me aborrecer. Quando me for apresentado o prato, o espanto ficará no meu rosto, para sempre. Pode não ter um bom resultado final, ser lembrada com ar de espanto... no entanto, foi sempre com espanto que vivi: espanto pela beleza das coisas, espanto pela descoberta de que afinal tudo pode ser tão simples. Não me parece mal.
Por outro lado, o prato recomendado pelo chef, a morte lenta, com paz e tranquilidade também parece uma escolha razoável. Desde que os condimentos não sejam exagerados, a dor, nem em falta, o discernimento. Mantendo a lucidez perante o prato apresentado, corro o risco de ficar com o medo marcado no rosto. Não mais do que o risco de morrer sorrindo, mergulhada nas recordações, perspectivando um futuro em que não estarei presente mas para o qual contribui à minha medida, vivido e saboreado pelos meus filhos, pelos meus amigos.
- É servida? - um vagabundo toca-me no braço com uma sandes de pasta de atum. Acordou-me daquele sonho estranho. Sorri-lhe e agradeci, abracei-o no seu ar de quem já viu malucos para tudo, desprendido.
Voltei para casa.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Lágrimas salgadas
As suas lágrimas procuram ávidas
onde desaguar.
Não lhe basta o rio, não lhe chega o mar.
Abre-se de lamento e dor,
sofre assim em grito mudo, sofre por Amor.
O poeta não perde quem ama,
na sua Alma vive-se para sempre.
O sal do rosto leva-o o vento,
Passeando a lingua pelos lábios, saboreio-o
sem beijar.
domingo, 18 de julho de 2010
El Salvador - Prisão juvenil
O medo anda pelas ruas.
Assobia no vento, leva consigo as dores choradas na noite.
O medo, abraço macabro de orgulho e dor.
Bala que penetra a carne, arranca as almas, num rasto de sangue
e morte... porque sim basta.
O medo anda pelas ruas.
Num olhar, sem piedade, num esgar de prazer sádico, aprisionado em ódio.
O medo, som indecifrável, três tempos numa valsa:
Um tiro, um grito, um aplauso... violência de bairro, gratuita
e morte... porque sim basta.
O medo anda pelas ruas.
O homicida salva o bando, o bando salva o bairro. O bairro salva o bando.
Quem salva o homicida?
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Memórias estrambalhadas
Faço uma poção: 1/3 de memórias, 1/3 de viagens que não fiz e um 1/3 de mim mesma.
Agito, junto gelo grosseiramente picado, posso enfeitar com o teu olhar,
lançar umas pitadas do odor que esqueceste nas minhas mãos, pó mágico e...
Viajo
Viajo à minha infância, às bandas desenhadas, minha companhia,
Heróis solitários numa demanda de si mesmos, perdidos na luta pelo bem.
Viajo numa selva onde se ouve sempre bater o coração da Terra.
Viajo ao melhor amor que fiz, ao som da tua voz... à sede do teu toque.
Tudo isto é o que sou, a demanda de mim em memórias assim...
Estrambalhadas!
terça-feira, 13 de julho de 2010
Nós cegos, surdos e mudos
Conta-me dos teus Nós, desagua em mim a tua angústia.
Desamarra - te do passado em mim, solta-te, grita!
Submerge neste Rio que inventei para ti, ouve o silêncio,
dos teus segredos.
No fim... começa de novo
sexta-feira, 9 de julho de 2010
O Tempo pergunta ao Tempo quanto Tempo o Tempo tem
Vejo o Sol esconder-se e lembro-me daquela tarde de Fevereiro, uma viagem inesperada, a caminho da morte. Levava-me o carro, sabia o caminho. O meu olhar preso ao pôr-do-Sol.
Assolava-me a certeza assustadora de que a pessoa que me esperava nunca mais o veria, a suspeita de que na véspera ela não se lembrara de o ver uma última vez. Ver o Sol esconder-se por detrás dos montes verdejantes do Alentejo é algo que devia marcar a nossa despedida desta vida.
É tudo uma questão de Tempo. Traiçoeiro passa por nós, mergulha-nos numa amnésia de si mesmo. Passamos o Tempo a "matar" o Tempo, quando afinal é o Tempo que nos mata e nos faz nascer.
Não existem horas, meses nem anos, não conto assim o Tempo que passa pela morte, nem o Tempo que passa por nós.
Não tenho idade, os meus amigos não têm idade: eu vivo, os meus amigos vivem. Única certeza que quero perpétuar, sem Tempo.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Canto... do Cisne
Lamento de... nunca Ter-me perdido nos teus braços
a caminho de Amanhã,
a bordo de um passado sem memórias de ti
Tatuado invisivel no meu corpo,
o manto com que me cubro e me escondo
de Mim
Lamento de... nunca Ter viajado no céu
pulando de Sol em Lua
varrendo as estrelas pelo prazer do Caos
Confundindo o mundo
nas cores com que me cubro e me escondo
de Mim
Lamento de... nunca Ter-me perdido num campo de trigo
domingo, 4 de julho de 2010
Nunca aprendi a escrever
Escondo com a mão as palavras que escrevo
Palavras que não quero ler porque se escrevem por si
Dominam e Escrevem-me
as palavras.
Voltei para escrever, para quem quiser saber
Quem sou...
eu já não sei, não quero saber
Semi cerro os olhos para as olhar sem ler
Escondi-me na floresta verde, ri, chorei e alucinei
Perdi-me na memória de um futuro inventado por mim
Volto sim, vazia
desaprendida de palavras, esquecida de ser amada
quinta-feira, 1 de julho de 2010
"Senhoras e senhores passageiros, neste momento sobrevoamos Casablanca"

terça-feira, 29 de junho de 2010
...de ninguém
Nunca disse "Meu amor",
Porque não é de ninguém
O amor é livre,
Palavra infinitamente celebrada
Visita cada um à sua maneira,
Sem avisar à chegada
Nem denunciar a partida
Sem possuir,
Domina,
Torna-se o centro de todas as coisas
Presente ou ausente
Se fosse banida esta palavra,
Extinguir-se-ia a chama dos poetas
O que digo eu, se não digo "meu amor"?
Não digo nada, não canto,
Visto-me de aguarela e deito-me sobre a tela,
Sendo de todas as cores, não sou nenhuma
Apenas sou
nada de ninguém
domingo, 27 de junho de 2010
Sonho de uma noite... de Verão?
Como se fosse Dezembro
o nosso beijo fez-se abraço e o abraço fez-se amor
Como se fosse Dezembro
Ficámos assim, eu em ti e tu em mim
As estrelas choveram em nós, marcando os corpos,
sinais perpétuos de luz e de desejo
E inventámos esta noite em que se fez Verão
Corpos e almas, unidos em suor e lágrimas
Como se fosse Dezembro
terça-feira, 22 de junho de 2010
O balão
Abraça-me. Agarra-me como se eu fosse um balão de hélio.
Prende-me com um nó infantil sem nexo, para que te não fuja.
Amarra-me, como a Ulisses, para não sucumbir ao canto das sereias
Seduz-me, com o teu encanto, ofuscando a luz das estrelas
Não sei se te fujo para elas, se me deixe tombar ...
Morrerei, como o balão, ao esqueceres que te pertenço.
Cativa-me...
Só assim serei livre!
domingo, 20 de junho de 2010
O fim dos dias
Não quero que este dia acabe. Não por ser um dia especial, mas por ser um dia sem nada de especial.
Alguém me disse: Porque raio achas que a vida tem que ser especial? Mete na cabeça que a vida é uma merda e por mais que te esforces, não encontrarás nada de especial... tudo se resume a uma boa queca!
Não quis acreditar, todos os dias espero um dia especial, o dia começa, o dia acaba e... não se passa nada de especial. Ano após ano...
Por vezes, o feitiço parece perder a força, eu penso: agora sim, tudo vai correr bem.
Não quero que este dia acabe, nunca mais...Não quero mais dias!
quinta-feira, 17 de junho de 2010
A DOR. Há dias em que a dor me recorda que não tenho escolha, sou de carne e de osso. A dor instalou-se, vai-me mordendo o corpo como cão raivoso e sou eu quem lhe dá abrigo.
A DOR rasga-me sem pudor, reduz o meu corpo a uma amalgama de sensações, a um latejar constante e a uma vontade louca de não estar aqui, numa ânsia de procurar um sitio onde me esconder.DOR DOR DOR DOR
quarta-feira, 16 de junho de 2010
A tela da liberdade
Deixei de ver o vagabundo com a sua tela colorida. Abrigava-se numa porta de um prédio, protegia as tintas e os pincéis da chuva e do vento. Não me sai da memória... a dignidade, a cabeça erguida, o corpo grande e aberto ao mundo, o orgulho com que segurava os pincéis e coloria a tela. Aquele era o seu mundo, a sua vida, a sua razão. Quem não quiser olhar não olhe, quem não quiser admitir a sua existência, não admita, quem criticar o seu modo de vida, que tente fazer melhor: imprimir a própria existência numa tela que lembra as cores do mundo inteiro e questiona a liberdade de quem passa.